Aconcágua: Um desafio inigualável!

O nome oficial da montanha é Cerro Aconcagua. Fica localizado no Parque Provincial do Aconcagua, Mendoza, Argentina. Seu significado é "Sentinela de Pedra" (Kon Kawa, segundo os Aymaras, antigos habitantes da região). A primeira ascensão foi de Mathias Zurbriggen (Suíça), 1897.

Nossa expedição teve início em 19 de novembro de 2004 e concluímos em 05 de dezembro de 2004.

Rota escolhida: Face Noroeste ou Rota Normal.

A expedição Aconcágua foi a segunda etapa de um projeto pessoal que denominei "PROJETO 3 CONTINENTES", que pretende atingir o cume da montanha mais alta do continente africano, americano e europeu.
A 1ª etapa foi o Monte Kilimanjaro (5895 m), na Tanzânia, África, concluída em 2002 e a terceira e última etapa será na Rússia o Monte Elbrus, com 5642 m.

Santiago (no Chile) foi nosso ponto de partida. Em 6 horas de viagem subimos a cordilheira até 3300 m e descemos até Mendoza, a 756m, numa sinuosa e belíssima estrada.

Na fronteira do Chile e Argentina um amontoado de carro e gente. Passaporte, formulários, burocracia...

Mendoza foi uma grata surpresa. Limpa, plana, muito arborizada (graças aos canais de irrigação que cortam toda a cidade) e um povo extremamente gentil. Para os apreciadores, a cidade produz os melhores vinhos da Argentina. Caminhar pelas ruas para comprar ou alugar os últimos equipamentos é uma festa e jantar nos inúmeros restaurantes com mesas nas calçadas, sob a copa das árvores, um grande prazer.

Mendoza

Para ingresso e escalada no Aconcágua é preciso tirar o "permiso", que é adquirido no maior dos inúmeros parques da cidade, o Parque San Martin.

Antes de subir o Aconcágua, optamos por fazer a aclimatação na cadeia de montanha em Cordon Del Plata, próxima a Mendoza. A montanha escolhida foi Vallecitos, com 5500 m.

Primeira parada foi no acampamento-base de El Salto, a 4200m. Ficamos abrigados na tenda de apoio e socorro, pois a mula com parte das nossas coisas, incluindo a barraca, só chegou as 10:00 da noite. Foram 3 dias ininterruptos de muita neve, vento e, naturalmente, um frio de rachar.

No dia do ataque ao cume, uma tempestade de neve e vento, além de alguns "sustos" ocasionados por escorregões nos fizeram retornar ao acampamento-base antes do objetivo. Estávamos a 5000 m.

Desgaste psicológico, mau tempo e baixa estima fruto da desistência, são alguns dos obstáculos vivenciados por quem se aventura no Aconcágua.

No dia seguinte, descemos, saímos de Cordon Del Plata e fomos direto para o Parque Provincial do Aconcágua. Devido a alguns contratempos, só chegamos a Puente Del Inca, onde está a portaria do Parque, às 9:00 da noite. Apesar da hora, resolvemos não descumprir o nosso cronograma e seguimos até Confluência, a 3300m.

Parque

ACAMPAMENTO CONFLUÊNCIA - 3300 m

O bom tempo da noite anterior permaneceu!
Preparamos as mulas que levariam nossas coisas até o próximo acampamento, Plaza de Mulas. As mais arredias vão às cegas. Cada animal pode carregar até 60 kg a US$2 por kg.

É um longo trecho. Após atravessarmos o Rio Horcones, subimos uma encosta não muito longa, mas bem inclinada. Depois iniciamos uma travessia chamada "Playa Ancha", ou Praia Larga. Embora de aclive suave, o chão de cascalho e o vento inclemente tornam este trecho um tanto quanto desgastante. Ao final de Playa Ancha somos surpreendidos por uma placa que indica que estamos apenas na metade do caminho, ou seja, ainda faltam 4 horas pela frente e as perspectivas não são nada animadoras: o novo trecho é chamado de Cuesta Brava. Precisa dizer mais?

Algumas mulas não resistem ao esforço e são abandonadas pelo caminho.

Mula

ACAMPAMENTO-BASE PLAZA DE MULAS - 4300 m

A bandeira Argentina não deixa dúvidas: para desgosto dos chilenos, a maior montanha das Américas, embora no limite da fronteira, encontra-se totalmente em território argentino.
Mais que um acampamento, Plaza de Mulas, com suas barracas multicoloridas e seus inúmeros serviços oferecidos, mais parece uma pequena cidade.
Serviços médicos para os debilitados em geral, telefone satelite para matar a saudade de casa, lanches, carregadores para os mais acomodados. E não para por aí: acabou o filme da máquina fotográfica? Pelo triplo do preço está na mão.

Placas

Quer tomar um banho quente? Se tiver disposição para tirar a roupa num frio congelante e pagar US$ 10 por 5 minutos, vá em frente.

O helicóptero tem múltiplas funções. Desde transportar suprimentos ou equipamentos para os guarda-parques até resgatar doentes ou feridos que retornam dos acampamentos superiores. Ah, e resgata, também, os mortos. Sim, o Aconcagua mata. Mesmo sua Rota Normal mata com mais freqüência do que imaginamos. Normalmente são vítimas de edema pulmonar ou cerebral causado por problemas com a aclimatação.

O dia seguinte ao da chegada a Plaza de Mulas foi destinado à aclimatação. Levamos parte dos nossos equipamentos e suprimentos para as bases de "Canadá" e "Nido de Condores" e retornamos a Plaza de Mulas.
Um descuido com os óculos e com o protetor solar me acarretou sérias queimaduras no rosto e nos olhos e quase pôs fim à viagem. Pelo grau de cansaço que eu me encontrava, eu não teria achado má idéia.

Mas nada como um dia após o outro. Esta é uma verdade na montanha. Sim,não se deve subestimá-la, mas não se pode subestimar, também, uma noite de sono (ainda que mau dormida) e um belo dia de sol. Portanto, se estiver pensando em desistir, deixe para tomar a decisão pela manhã.

Após um reforçado café da manhã com direito a alguns luxos, como mesa e cadeiras, rumamos para Canadá.

No caminho, a visão de Plaza de Mulas que agora ficava para trás, ou melhor, para baixo.

ACAMPAMENTO CANADA - 4900 m

Jairo prepara o jantar na cozinha improvisada. A partir daqui, a água para beber e cozinhar seria obtida com o derretimento da neve.

Um longo caminho que nos levaria à próxima etapa, Nido de Condores.

Canada

ACAMPAMENTO NIDO DE CONDORES - 5300m

Na minha opinião, Nido de Condores é o mais bonito dos acampamentos do Aconcágua.

Abrigamos nossa barraca próximo as rochas. O vento aqui é forte e intenso.

Chegar em um novo acampamento significa terminar um esforço e começar um outro, tão intenso quanto. A rotina de montar a barraca era ingrata, pois tínhamos que buscar pedras para amarrá-la e fazer um pequeno muro ao seu redor para protegê-la do vento. Além de muitas, as pedras tinham que ser pesadas, sob pena do vento carregar a barraca. E carrega mesmo. Conclusão: chegávamos cansados, faltando ar para respirar e ainda tínhamos que carregar pedras e buscar neve para derreter. Eu me sentia, praticamente, em um campo de trabalhos forçados da Sibéria.

A montanha também nos surpreende positivamente. Conhecemos dois bons amigos: os espanhóis Luiz e Jose.

Agora nosso destino era Berlim.

Nido de Condores

ACAMPAMENTO BERLIM - 5900 m

Como estava vazio, optamos por ficar no refúgio. Não estava limpo, aliás estava com todo tipo de imundície imaginável. Tivemos que limpá-lo. Mas era mais quente e protegido que nossas barracas. Além do mais, a estas alturas (literalmente) nós também não éramos um exemplo de asseio e higiene.

"Ai, ai, ai, o que que eu tô fazendo aqui??"

Refúgio

Ninguém dorme a esta altitude. A 6000 m o organismo não consegue mais se reabilitar, de forma que ele passa a se auto consumir. Assim, nossa última noite antes do ataque ao cume foi permeada de sons, não somente das tosses provocadas por pulmões e gargantas que já trabalhavam no limite, mas os sons dos nossos pensamentos. Estes, sim, gritavam para quem quisesse ouvir nossos medos, nossa vontade, nosso sonho, tão perto e tão distante.

Nos levantamos as 5:00 e começamos a arrumar as coisas enquanto o Jairo preparava nossa "bomba" de aveia, castanha e passas. Tudo demora, tudo é lento porque tudo cansa. Calçar a bota cansa, arrumar a mochila cansa, tudo cansa.

Saímos 7:30. Éramos 7 pessoas. Nós 3, Luiz e José, um alemão e outro italiano que ficaram conosco no refúgio. O termômetro marcava -17º.

Descanso a 6.400 m!

Poderíamos dividir este último trecho de 1000 metros de desnível em três partes: a primeira é um trecho bastante inclinado que vamos ziguezagueando até o antigo Refúgio Independência (hoje em ruínas), a 6300 m. A segunda parte, embora numa inclinação aparentemente mais branda, é longa e muito exposta ao vento. Não por acaso é chamada de Paso del Viento. O trecho final é a famosa Canaleta. Muito íngreme e de difícil progressão, é um trecho perigoso e que requer muita atenção, pois seu terreno, um misto de pedras soltas, neve escorregadia e gelo, é propício a quedas e acidentes.

Deste ponto falta muito pouco para o cume. Qualquer passo, porém, é um esforço sobre-humano, o que torna a menor das distâncias uma pequena eternidade. Teimosamente, continuamos avançando.

O famoso e temido Viento Blanco indicando vento forte e frio intenso.

Viento Blanco

CUME DO ACONCAGUA - 6962 m

Às 14:30 do dia 1º de dezembro de 2004 chegamos ao cume do Monte Aconcágua.

Pico Aconcágua

Não sei quanto a outras pessoas, mas não sinto euforia ao atingir o cume de uma montanha. Não tenho sentimentos de "vitória" ou "conquista", muito pelo contrário, acho que a montanha é muito mais um exercício de humildade do que de vaidade.
Sinto, sim, uma paz de espírito muito grande e uma gratidão enorme a Deus por ter me permitido viver este momento. Lembro da Juliana e dos meninos e dedico a eles o momento, tiro as fotos de praxe e já é hora de voltar.

Temos todo um caminho de volta pela frente. A 7000 m há menos da metade do oxigênio presente no nível do mar para suprir as necessidades vitais do nosso organismo, dentre elas, manter-se consciente, de forma que manter a concentração é uma dificuldade e perdê-la pode ser fatal. Muitos dos acidentes em alta montanha ocorrem justamente na descida quando a sensação de dever cumprido, como um canto de sereia, ilude-nos, levando-nos à distração e aos acidentes.

A temível face Sul do Aconcágua

Com muito esforço, voltamos à Berlim. "Refúgio, sweet refúgio"

No dia seguinte, já em Plaza de Mulas, fizemos um merecido jantar de comemoração.
Brindávamos muitas coisas: ter chegado ao cume, ter voltado de lá, não ter mais que subir e descer morro com uma mochila de 20 kg nas costas...
Mas brindávamos, especialmente, o aniversário de 1 ano do Janjão (meu filho), que comemoraríamos após o meu retorno para casa.

Comemoração: Aniverário de João!

À noite nevou em Plaza de Mulas e, no dia seguinte, o tempo virou completamente. As pessoas que tentaram o cume neste dia tiveram que retornar. Tivemos mesmo muita sorte com o tempo.

Agora só olhávamos para o longo caminho de volta.

Foram 13 dias de montanha. Frio, cansaço, falta de ar, desconforto, saudade, angústia, e tudo isto por quê ou para quê??
Esta não é uma pergunta simples e eu não sei a minha resposta.
Para estar mais próximo de Deus? Para estar mais próximo de mim mesmo? Por que a Juliana diz que eu volto um homem melhor da montanha? Porque eu gosto do longo processo de preparação e planejamento? Ou simplesmente para ter histórias para contar para os meus filhos?
Talvez por tudo isto.
Talvez, também, por não ter uma resposta pronta e querer sempre buscá-la na próxima montanha.

O Aconcágua deixou marcas. Na alma...e na cara.

Marcas


Embora não exija técnicas apuradas de escalada, seria um equívoco considerar a ascensão pela Rota Normal como um simples trekking de altitude. Clima desértico, vegetação que não ultrapassa os 3.000 m, baixíssima umidade relativa do ar e ventos que intensificam seus efeitos afetam fisicamente e psicologicamente os que se aventuram por lá, aumentando as dificuldades de ascenso. Por apresentar condições climáticas muito mais severas que o Himalaia, alguns consideram o Aconcágua como "um pequeño 8.000". Exagero ou não, as dificuldades e os cuidados requeridos para se chegar ao seu cume já são grandes o bastante para que nos prendamos a estas discussões.

O Aconcágua nos deu as boas-vindas com uma linda e clara noite de lua cheia. Tão clara que dispensamos as lanternas, tão linda que se tornou uma das melhores recordações da viagem.

Em breve você vai poder conferir a galeria de fotos completa desta aventura.

Juarez Gustavo Pascoal Soares



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